Um dos maiores desejos de quem sofreu uma lesão na medula cervical e ficou tetraplégico é recuperar o movimento da mão — poder segurar um copo, usar o celular, se alimentar sozinho. Existe uma cirurgia capaz de devolver parte importante desses movimentos: a transferência de nervo, também chamada de neurotização, usada isoladamente ou combinada com as técnicas clássicas de transferência de tendão.
O que permanece funcionando
Após uma lesão medular cervical, parte das vias nervosas acima do nível da lesão continua ativa. A transferência nervosa aproveita um desses nervos, considerado dispensável, para reinervar um músculo que perdeu o comando.
A palavra "dispensável" é escolhida com cuidado. O doador é selecionado justamente porque a função que ele exerce pode ser assumida por outros músculos, ou porque seu papel é menos importante do que o movimento que se pretende recuperar. Essa escolha é uma parte central do planejamento.
Nervo e tendão: duas ferramentas diferentes
A transferência nervosa tenta reinervar um músculo paralisado. A transferência de tendão redireciona a força de um músculo que já funciona para uma nova tarefa.
São mecanismos distintos, com consequências práticas distintas:
- A transferência nervosa depende de o músculo-alvo ainda estar em condições de ser reinervado, e o resultado leva meses para aparecer.
- A transferência de tendão produz um efeito mecânico mais previsível no tempo, mas consome um músculo que já era funcional.
Por muitos anos, a transferência de tendão foi a única opção cirúrgica para recuperar função da mão após lesão medular cervical. É uma técnica eficaz e consolidada, mas tem limitações: cada tendão transferido geralmente restaura apenas um movimento, exige imobilização prolongada (6 a 12 semanas de gesso ou tala) e, ao longo dos anos, parte da força conquistada pode se perder.
Em relação à técnica tradicional, a transferência de nervo traz algumas vantagens:
- Restaura o movimento de forma mais natural, porque reconecta o músculo a um comando nervoso, e não a um tendão emprestado.
- Pode reanimar mais de um músculo ao mesmo tempo, enquanto a transferência de tendão normalmente resolve um movimento por vez.
- Exige imobilização muito mais curta — cerca de 14 a 21 dias de tipoia, contra semanas de imobilização gessada na cirurgia de tendão.
- Não sofre o desgaste mecânico que pode ocorrer com tendões, como ruptura, aderência ou afrouxamento.
Combinar as duas técnicas
A reconstrução mais atual não se resume a escolher entre nervo ou tendão: ela combina as duas estratégias de forma personalizada. A pergunta não é qual técnica é melhor, e sim qual combinação atende os objetivos daquela pessoa. Estudos recentes mostram que:
- é possível reconstruir uma mão com transferência de nervo e a outra com transferência de tendão, aproveitando as vantagens de cada técnica. Pacientes relatam que a mão reconstruída com nervo fica mais natural e ágil para tarefas delicadas, como digitar, usar o celular e cumprimentar, enquanto a mão operada com tendão costuma ficar mais forte para segurar objetos pesados;
- a transferência do nervo do supinador para o nervo interósseo posterior ampliou de forma importante a capacidade de abrir a mão (extensão dos dedos e do polegar), uma função historicamente muito difícil de restaurar apenas com tendões;
- estudos de 2025 e 2026 mostram que combinar nervo e tendão na mesma mão, em cirurgias por etapas, pode gerar melhora adicional na capacidade de abrir e fechar a mão, em comparação com a transferência de tendão isolada.
As combinações mais usadas para cada movimento estão em como voltar a dobrar o cotovelo ou abrir a mão.
Movimentos escolhidos, não recuperação da lesão
O objetivo não é reverter a lesão medular. É buscar ganhos em movimentos específicos que podem ampliar a autonomia — normalmente aqueles com maior impacto nas atividades diárias, como a extensão do cotovelo e a preensão da mão. Os resultados variam conforme o caso.
Esses alvos são definidos junto com o paciente antes da cirurgia, a partir do que já funciona e do que faria mais diferença na rotina. Transferências, uso da cadeira de rodas, alimentação, higiene, autocateterismo, trabalho e uso de computador entram nessa conversa de forma concreta.
Como a avaliação é conduzida
A consulta mapeia, músculo a músculo, o que permanece funcional. Esse mapeamento define quais transferências são tecnicamente possíveis, e a conversa seguinte trata de objetivos, rotina de cuidados e disponibilidade para o programa de reabilitação.
Existe uma classificação internacional para cirurgia da mão na tetraplegia, que organiza os membros conforme a sensibilidade e o número de músculos úteis abaixo do cotovelo. Ela ajuda a planejar e a comparar casos entre serviços — mas é um instrumento de planejamento, e não um roteiro que indica automaticamente uma operação.
Também entram na avaliação a integridade dos nervos doadores, a condição das articulações, a presença de contraturas e, quando necessário, o estudo eletrofisiológico para verificar se o músculo-alvo ainda tem conexão viável.
O tempo depois da lesão
Esta é uma das perguntas mais frequentes, e a resposta tem duas partes.
A literatura descreve transferências nervosas bem-sucedidas desde alguns meses até anos depois da lesão. Mas a janela depende do músculo que se pretende reinervar: a denervação prolongada deteriora o alvo e pode eliminar algumas opções.
As transferências de tendão, em geral, continuam disponíveis por mais tempo, desde que existam músculos doadores adequados. Por isso a avaliação precoce tem valor mesmo quando a cirurgia não é feita naquele momento — ela mapeia o que ainda está disponível e o que tem prazo.
Os melhores resultados gerais são relatados em pacientes mais jovens (abaixo de 25 anos) operados dentro dos primeiros 6 meses após o acidente. Entenda por que existe esse "relógio" em até quanto tempo depois do trauma a transferência nervosa é possível.
A reabilitação é parte do tratamento
Depois da cirurgia, o cérebro precisa aprender a acionar a nova via nervosa. O treinamento orientado é o que transforma a conexão recuperada em movimento útil, e sem ele o ganho anatômico pode não se traduzir em uso prático.
No começo, o novo movimento aparece junto com o comando do músculo doador — a pessoa precisa "pensar" no movimento antigo para ativar o novo. Separar os dois comandos é uma construção do treino, feita ao longo de meses, e é uma das razões pelas quais a disponibilidade para o programa de reabilitação entra na decisão sobre operar.
O que a literatura mostra, e o que ela não prevê
Os estudos disponíveis são majoritariamente séries pequenas, com populações heterogêneas e medidas próprias de cada trabalho. Revisões sistemáticas descrevem recuperação de força mais consistente em algumas reconstruções — sobretudo extensão do cotovelo e extensores — do que em outras estratégias.
Um estudo publicado na revista Lancet acompanhou pacientes com tetraplegia por 24 meses após transferências de nervo e mostrou ganhos significativos de força de pinça e de preensão, além de melhora consistente na independência para atividades como transferências da cama para a cadeira de rodas, autocateterismo e uso de dispositivos eletrônicos. Outro estudo, publicado na JAMA Network Open, acompanhou pacientes por até 48 meses e mostrou que a força muscular pode continuar melhorando durante todo esse período, mesmo depois que os ganhos funcionais já haviam se estabilizado, por volta dos 24 meses.
Coortes multicêntricas publicam médias de força de preensão e de pinça após um ano. Esses números descrevem aqueles grupos e são úteis para o planejamento do serviço. Eles não se traduzem em percentual de recuperação da mão de uma pessoa, e apresentá-los assim seria enganoso.
O que se pode combinar antes da cirurgia é concreto: quais movimentos serão trabalhados, em que ordem, com que prazo de reabilitação e quais tarefas do dia a dia eles pretendem tornar possíveis.
Este texto é educativo. A elegibilidade e os objetivos são definidos em avaliação presencial, sem promessa de resultado.
Referências
- van Zyl N, Hill B, Cooper C, Hahn J, Galea MP. Expanding traditional tendon-based techniques with nerve transfers for the restoration of upper limb function in tetraplegia: a prospective case series. The Lancet, 2019.
- Javeed S, Dibble CF, Greenberg JK, et al. Upper limb nerve transfer surgery in patients with tetraplegia. JAMA Network Open, 2022.
