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Dor neuropática central após lesão medular: tratamento da queimação abaixo da lesão

Essa dor nasce de um "curto-circuito" no próprio sistema nervoso lesionado — e o manejo correto pode reduzir sua intensidade de forma significativa.

Muitos pacientes com lesão medular sentem, abaixo do nível da lesão, uma dor diferente de qualquer outra: queimação, choque, agulhada, formigamento intenso ou sensação de "pele em carne viva", mesmo em áreas onde não há mais sensibilidade normal ao toque. Essa dor tem nome — dor neuropática central — e nasce de um "curto-circuito" no próprio sistema nervoso lesionado.

Uma dor mais comum do que se imagina

A dor neuropática não é rara nem sinal de que "algo deu errado" no tratamento. Uma revisão sistemática publicada em 2025, que reuniu 24 estudos e mais de 6 mil pessoas, estimou que cerca de 57% das pessoas com lesão medular convivem com algum tipo de dor neuropática.

Ela costuma ser classificada pela localização em relação à lesão:

  • No nível da lesão: sentida na faixa do corpo correspondente ao ponto lesionado da medula.
  • Abaixo do nível da lesão: sentida em áreas abaixo desse ponto, muitas vezes de forma difusa — é a queimação descrita no início deste texto.

Essa distinção importa porque ajuda a orientar o tratamento e a acompanhar a resposta a cada medida.

Por que isso acontece?

Quando a medula é lesionada, os circuitos que processam as sensações de dor ficam desorganizados. Sem os freios normais, esses circuitos passam a gerar sinais de dor mesmo sem nenhum estímulo externo.

É por isso que a dor pode aparecer em uma área que, ao mesmo tempo, está "dormente" ou sem sensibilidade. Os dois sintomas não são contraditórios: fazem parte do mesmo processo.

Como a dor é avaliada

As diretrizes canadenses CanPain SCI, uma das principais referências internacionais no tema, recomendam que a dor seja perguntada de forma ativa e repetida — na internação, durante a reabilitação e nos retornos —, e não apenas quando o paciente toca no assunto. A avaliação usa questionários padronizados e procura dois tipos de sinal:

  • sinais de alerta, que podem indicar outro problema sério por trás da dor e precisam de investigação;
  • fatores emocionais e sociais, como sono ruim, humor deprimido e isolamento, que intensificam a dor e também precisam ser tratados.

O tratamento é feito em etapas

Não existe uma solução única que resolva a dor de todos os pacientes. O tratamento costuma seguir uma ordem, testando primeiro as opções com mais evidência científica e depois avançando conforme a resposta:

  • Primeira linha: pregabalina e gabapentina são os medicamentos mais estudados e com melhor resultado comprovado em estudos clínicos controlados, reduzindo a intensidade da dor e melhorando o sono, a ansiedade e o humor. A amitriptilina (antidepressivo tricíclico) também é primeira linha, especialmente quando há sintomas depressivos associados.
  • Efeitos colaterais a monitorar: sonolência, tontura e inchaço nas pernas são os mais comuns com pregabalina e gabapentina. A amitriptilina pode causar boca seca e, em pessoas com bexiga ou intestino neurogênicos, piorar esses sintomas — por isso a escolha do medicamento é individualizada.
  • Segunda e terceira linhas: quando a resposta é insuficiente, entram outras opções, como o anticonvulsivante oxcarbazepina, o tramadol ou a lamotrigina (esta última mais indicada em lesões incompletas).
  • Tratamentos complementares: estimulação elétrica não invasiva do cérebro (estimulação transcraniana), toxina botulínica em casos selecionados e, mais recentemente, técnicas de neuromodulação (estimulação da medula ou do cérebro) para dores que não respondem aos medicamentos.

Essa sequência acompanha as diretrizes CanPain SCI, atualizadas em 2021, que classificam a pregabalina como a primeira escolha por ter a evidência mais forte para a dor abaixo do nível da lesão. Uma metanálise de estudos controlados confirmou que pregabalina e gabapentina reduzem a dor de forma semelhante entre si, com benefício também sobre sono, ansiedade e humor no caso da pregabalina.

As mesmas diretrizes apontam medicamentos que não devem ser usados para essa dor, como o levetiracetam e a mexiletina, por não terem mostrado benefício.

Nenhum medicamento deve ser iniciado, trocado ou suspenso sem orientação médica.

O que não costuma funcionar bem

Opioides fortes, como oxicodona ou morfina, são reservados para situações muito específicas e avaliados com cautela. Nas diretrizes, a oxicodona aparece apenas entre as últimas opções, ao lado dos canabinoides e da estimulação elétrica transcutânea (TENS), que têm evidência mais fraca.

Quando a cirurgia entra na conversa

Para uma pequena parte dos pacientes, com dor intensa que não respondeu a nenhuma das etapas anteriores, existem procedimentos neurocirúrgicos. Um deles é a cirurgia sobre a zona de entrada das raízes dorsais na medula, conhecida como DREZ. As diretrizes a colocam como último recurso, considerado apenas depois que as demais opções foram tentadas, e a indicação exige avaliação especializada cuidadosa.

Além do remédio

O controle da dor não depende só de medicação. As diretrizes recomendam:

  • estimular estratégias de autocuidado, para que a pessoa participe ativamente do controle da dor;
  • tratar o sono, o humor e o impacto da dor nas atividades, e não apenas a sua intensidade;
  • considerar a terapia cognitivo-comportamental para ajudar a lidar com a dor;
  • sempre que possível, acompanhamento em reabilitação multiprofissional especializada em lesão medular.

Por que vale a pena investigar antes de "aceitar conviver com a dor"

Muitos pacientes acham que essa dor é definitiva e não procuram ajuda. Mas o manejo correto — muitas vezes combinando mais de uma estratégia — pode reduzir de forma significativa a intensidade da dor e melhorar o sono e a disposição para a reabilitação.

Uma avaliação especializada ajuda a identificar se a dor é realmente de origem central (nervosa) ou se existe algum componente mecânico ou de compressão nervosa associado que também precise ser tratado. Pacientes com tetraplegia podem conhecer também as cirurgias de ganho de autonomia.

Este texto é educativo e não substitui a consulta. O tratamento da dor é individualizado, e nenhuma medicação deve ser usada sem prescrição.

Referências

  1. Loh E, Mirkowski M, Agudelo AR, et al. The CanPain SCI clinical practice guidelines for rehabilitation management of neuropathic pain after spinal cord injury: 2021 update. Spinal Cord, 2022.
  2. Salehian F, Aarabi A, Rajai Firouzabadi S, et al. Prevalence of neuropathic pain following spinal cord injury: an updated systematic review and meta-analysis. Journal of Clinical Neuroscience, 2025.
  3. Davari M, Amani B, Amani B, et al. Pregabalin and gabapentin in neuropathic pain management after spinal cord injury: a systematic review and meta-analysis. Korean Journal of Pain, 2020.

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