Quem sofreu uma lesão na medula espinhal na região do pescoço (coluna cervical) e ficou com tetraplegia — perda de movimentos nos quatro membros — muitas vezes pergunta se ainda existe alguma cirurgia capaz de devolver parte da função das mãos e dos braços. Quando a lesão está nos níveis C6 ou C7, a resposta costuma ser sim.
Por que C6 e C7 são níveis "privilegiados" para cirurgia
Na tetraplegia, o nível da lesão define quais músculos do braço e da mão ainda recebem comando do cérebro (acima da lesão) e quais ficaram paralisados (abaixo da lesão).
Pacientes com lesão em C6 ou C7 geralmente preservam algum movimento de ombro, cotovelo e punho, mas perdem funções essenciais, como esticar o cotovelo, abrir a mão ou fazer pinça com os dedos. É exatamente esse "resto" de força voluntária acima da lesão que pode ser aproveitado cirurgicamente para reanimar os músculos paralisados abaixo dela.
Duas técnicas principais: transferência de tendão e transferência de nervo
Existem duas famílias de cirurgia, que podem ser combinadas no mesmo paciente:
- Transferência de tendão: o tendão de um músculo que ainda funciona é redirecionado para substituir a ação de um músculo paralisado. É uma técnica antiga, confiável e bem estabelecida, mas exige algumas semanas de imobilização do braço após a cirurgia.
- Transferência de nervo (neurotização): um nervo saudável, que ainda recebe comando voluntário do cérebro, é conectado cirurgicamente a um nervo paralisado abaixo da lesão. Isso permite reanimar o músculo de forma mais natural, com imobilização mais curta, e um único nervo doador pode, às vezes, reativar mais de um músculo ao mesmo tempo.
Veja as combinações mais usadas em como voltar a dobrar o cotovelo ou abrir a mão.
O que a cirurgia pode devolver na prática
Os ganhos mais buscados incluem:
- estender o cotovelo com força;
- abrir a mão voluntariamente;
- fazer pinça entre o polegar e o indicador, permitindo segurar objetos;
- mais independência para se alimentar, cuidar da própria higiene, fazer o autocateterismo e até usar o celular ou dirigir com adaptações.
Quanto tempo até sentir o resultado
Diferente de uma cirurgia comum, a transferência de nervo depende da regeneração nervosa, que é lenta. Um estudo recente publicado na revista Annals of Neurology mostrou que o primeiro sinal elétrico de reinervação muscular aparece, em média, entre 7 e 10 meses após a cirurgia, dependendo do nervo transferido.
A força funcional máxima pode levar ainda mais tempo — meses a poucos anos —, e a melhora costuma continuar de forma gradual mesmo depois dos primeiros dois anos, principalmente nos movimentos dos dedos.
A fisioterapia é indispensável
Nenhuma dessas cirurgias funciona sozinha. Após a transferência de nervo, é necessária uma reabilitação estruturada — inicialmente com o braço protegido, depois com exercícios progressivos de contração, coordenação e força —, que pode se estender por 24 a 36 meses. A fisioterapia faz parte do tratamento e é componente crítico para transformar a reinervação do músculo em ganho funcional real.
Quem deve ser avaliado
Nem todo paciente é candidato às mesmas técnicas: a escolha depende do nível exato da lesão, dos músculos que ainda funcionam e do tempo desde o trauma. Uma avaliação individualizada com neurocirurgião especializado em nervos periféricos é o passo necessário para saber quais transferências — de nervo, de tendão ou uma combinação das duas — são indicadas em cada caso. O tempo também conta: veja até quando a transferência nervosa é possível após a lesão medular.
Este texto é educativo. A elegibilidade e os objetivos são definidos em avaliação presencial, sem promessa de resultado.
Referências
- Missen KJ, Brown JM, Mandeville RM, et al. Neurophysiological recovery following nerve transfer surgery to restore upper limb function after cervical spinal cord injury. Annals of Neurology, 2026.
- Javeed S, Dibble CF, Greenberg JK, et al. Upper limb nerve transfer surgery in patients with tetraplegia. JAMA Network Open, 2022.
