Depois de uma lesão medular cervical (no pescoço), muitas pessoas ficam sem conseguir dobrar o cotovelo, abrir a mão ou fazer uma pinça com os dedos. Isso acontece porque a mensagem elétrica que sai do cérebro não consegue mais atravessar o ponto da lesão para chegar aos músculos do braço e da mão. Só que, na maioria dos casos, os nervos que estão acima do nível da lesão continuam funcionando normalmente — e é justamente isso que a neurocirurgia de nervos periféricos aproveita.
O que é a transferência de nervo (neurotização) na tetraplegia?
É uma cirurgia em que um nervo saudável, que ainda está sob comando do cérebro, é conectado a um nervo que está "desligado" por causa da lesão medular. Na prática, o cirurgião pega um "fio" que ainda funciona e o liga a um músculo paralisado, criando um novo caminho para o movimento. A técnica está explicada em detalhes em como funciona a transferência nervosa.
As transferências mais usadas
Para dobrar o cotovelo (flexão)
Transferência de nervos chamados extraplexuais (de fora do plexo braquial) para reativar o músculo bíceps ou o braquial. Os doadores mais comuns são o nervo frênico ou os nervos intercostais e, em alguns casos, o nervo acessório.

Para abrir a mão e esticar os dedos
Transferência do nervo do músculo supinador para o nervo interósseo posterior — uma das transferências com resultados mais consistentes e de recuperação mais rápida.

Para estender o cotovelo
Transferência do nervo do músculo deltoide posterior (ou do redondo menor) para o nervo do tríceps. Estender o cotovelo ajuda inclusive nas transferências de posição, como sair da cama para a cadeira de rodas.

Para fechar a mão e fazer pinça (segurar objetos)
Transferência do nervo do músculo braquial para o nervo interósseo anterior, embora essa seja a transferência com resultado mais variável entre os pacientes. Aqui também existe a opção de transferência de tendão.

Em lesões muito altas (C4 ou acima)
É possível usar até o nervo acessório espinhal, que também controla o ombro, como doador.

Os resultados são reais?
Estudos recentes mostram ganhos consistentes de função. Em um estudo publicado na JAMA Network Open, a maior parte dos pacientes recuperou força útil: cerca de 70% conseguiram estender o cotovelo contra a gravidade, 79% recuperaram a extensão dos dedos (abrir a mão) e 52% recuperaram algum grau de flexão dos dedos. Outro estudo prospectivo, publicado na revista Lancet, mostrou melhora significativa na força de preensão, na pinça e nos testes funcionais de uso da mão após dois anos de acompanhamento.
Os números do próprio estudo da JAMA Network Open mostram um padrão que se repete na literatura: as transferências voltadas para abrir a mão e estender o cotovelo e os dedos têm resultados mais consistentes, enquanto as transferências para fechar a mão e fazer pinça têm recuperação mais variável e mais lenta — no estudo, o tempo mediano até a força útil para fechar os dedos foi de cerca de quatro anos.
Esses percentuais descrevem os grupos estudados e ajudam a planejar o tratamento, mas não representam a chance de recuperação de uma pessoa específica.
Quanto tempo leva para o movimento voltar?
A recuperação não é imediata: o nervo transferido precisa "crescer" até o músculo, e isso leva meses. A força continua melhorando de forma gradual por até dois a três anos, com fisioterapia e terapia ocupacional intensivas ao longo de todo esse período.
Existe prazo limite após a lesão medular?
A cirurgia costuma trazer melhores resultados quando planejada nos primeiros meses após a lesão, mas os estudos mostram que ela continua sendo viável mesmo em lesões mais antigas. A individualização, porém, é imprescindível — veja até quanto tempo depois do trauma a transferência é possível.
O que fazer a seguir
A avaliação para saber se a transferência de nervo é indicada depende do nível da lesão medular, da força residual dos músculos e, principalmente, de exames de eletroneuromiografia, que mostram quais nervos doadores e receptores ainda estão saudáveis o suficiente para a cirurgia. Uma consulta com o neurocirurgião especialista em nervos periféricos é o passo indicado para avaliar essas opções de forma individualizada.
Este texto é educativo. A elegibilidade e os objetivos são definidos em avaliação presencial, sem promessa de resultado.
Referências
- Javeed S, Dibble CF, Greenberg JK, et al. Upper limb nerve transfer surgery in patients with tetraplegia. JAMA Network Open, 2022.
- van Zyl N, Hill B, Cooper C, Hahn J, Galea MP. Expanding traditional tendon-based techniques with nerve transfers for the restoration of upper limb function in tetraplegia: a prospective case series. The Lancet, 2019.
