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Como voltar a dobrar o cotovelo ou abrir a mão sendo tetraplégico?

Os nervos acima do nível da lesão continuam funcionando — e é justamente isso que a neurocirurgia de nervos periféricos aproveita.

Depois de uma lesão medular cervical (no pescoço), muitas pessoas ficam sem conseguir dobrar o cotovelo, abrir a mão ou fazer uma pinça com os dedos. Isso acontece porque a mensagem elétrica que sai do cérebro não consegue mais atravessar o ponto da lesão para chegar aos músculos do braço e da mão. Só que, na maioria dos casos, os nervos que estão acima do nível da lesão continuam funcionando normalmente — e é justamente isso que a neurocirurgia de nervos periféricos aproveita.

O que é a transferência de nervo (neurotização) na tetraplegia?

É uma cirurgia em que um nervo saudável, que ainda está sob comando do cérebro, é conectado a um nervo que está "desligado" por causa da lesão medular. Na prática, o cirurgião pega um "fio" que ainda funciona e o liga a um músculo paralisado, criando um novo caminho para o movimento. A técnica está explicada em detalhes em como funciona a transferência nervosa.

As transferências mais usadas

Para dobrar o cotovelo (flexão)

Transferência de nervos chamados extraplexuais (de fora do plexo braquial) para reativar o músculo bíceps ou o braquial. Os doadores mais comuns são o nervo frênico ou os nervos intercostais e, em alguns casos, o nervo acessório.

Ilustração de uma transferência nervosa para flexão do cotovelo em lesão medular cervical: um nervo doador preservado é conectado ao nervo receptor do músculo bíceps, contornando o comando cerebral interrompido na medula.
Flexão do cotovelo: um nervo doador preservado passa a comandar o bíceps.Ampliar ilustração

Para abrir a mão e esticar os dedos

Transferência do nervo do músculo supinador para o nervo interósseo posterior — uma das transferências com resultados mais consistentes e de recuperação mais rápida.

Ilustração da transferência do nervo do músculo supinador para o nervo interósseo posterior no antebraço, reativando os músculos extensores e permitindo esticar os dedos e abrir a mão.
Abrir a mão: o nervo do supinador é ligado ao nervo interósseo posterior, que comanda os extensores dos dedos.Ampliar ilustração

Para estender o cotovelo

Transferência do nervo do músculo deltoide posterior (ou do redondo menor) para o nervo do tríceps. Estender o cotovelo ajuda inclusive nas transferências de posição, como sair da cama para a cadeira de rodas.

Ilustração da transferência nervosa para o nervo do tríceps no braço, com comparação entre o cotovelo sem capacidade de extensão antes da cirurgia e o cotovelo estendido depois.
Estender o cotovelo: um ramo nervoso do ombro é ligado ao nervo do tríceps.Ampliar ilustração

Para fechar a mão e fazer pinça (segurar objetos)

Transferência do nervo do músculo braquial para o nervo interósseo anterior, embora essa seja a transferência com resultado mais variável entre os pacientes. Aqui também existe a opção de transferência de tendão.

Ilustração da transferência do nervo do músculo braquial para o nervo interósseo anterior, que comanda os músculos responsáveis por fechar a mão e fazer pinça entre o polegar e o indicador.
Pinça e preensão: o nervo do braquial é ligado ao nervo interósseo anterior.Ampliar ilustração

Em lesões muito altas (C4 ou acima)

É possível usar até o nervo acessório espinhal, que também controla o ombro, como doador.

Ilustração da coluna cervical com uma lesão medular alta e o nervo acessório espinhal usado como nervo doador, com o ponto da nova conexão nervosa indicado.
Em lesões muito altas, o nervo acessório espinhal pode servir de doador.Ampliar ilustração

Os resultados são reais?

Estudos recentes mostram ganhos consistentes de função. Em um estudo publicado na JAMA Network Open, a maior parte dos pacientes recuperou força útil: cerca de 70% conseguiram estender o cotovelo contra a gravidade, 79% recuperaram a extensão dos dedos (abrir a mão) e 52% recuperaram algum grau de flexão dos dedos. Outro estudo prospectivo, publicado na revista Lancet, mostrou melhora significativa na força de preensão, na pinça e nos testes funcionais de uso da mão após dois anos de acompanhamento.

Os números do próprio estudo da JAMA Network Open mostram um padrão que se repete na literatura: as transferências voltadas para abrir a mão e estender o cotovelo e os dedos têm resultados mais consistentes, enquanto as transferências para fechar a mão e fazer pinça têm recuperação mais variável e mais lenta — no estudo, o tempo mediano até a força útil para fechar os dedos foi de cerca de quatro anos.

Esses percentuais descrevem os grupos estudados e ajudam a planejar o tratamento, mas não representam a chance de recuperação de uma pessoa específica.

Quanto tempo leva para o movimento voltar?

A recuperação não é imediata: o nervo transferido precisa "crescer" até o músculo, e isso leva meses. A força continua melhorando de forma gradual por até dois a três anos, com fisioterapia e terapia ocupacional intensivas ao longo de todo esse período.

Existe prazo limite após a lesão medular?

A cirurgia costuma trazer melhores resultados quando planejada nos primeiros meses após a lesão, mas os estudos mostram que ela continua sendo viável mesmo em lesões mais antigas. A individualização, porém, é imprescindível — veja até quanto tempo depois do trauma a transferência é possível.

O que fazer a seguir

A avaliação para saber se a transferência de nervo é indicada depende do nível da lesão medular, da força residual dos músculos e, principalmente, de exames de eletroneuromiografia, que mostram quais nervos doadores e receptores ainda estão saudáveis o suficiente para a cirurgia. Uma consulta com o neurocirurgião especialista em nervos periféricos é o passo indicado para avaliar essas opções de forma individualizada.

Este texto é educativo. A elegibilidade e os objetivos são definidos em avaliação presencial, sem promessa de resultado.

Referências

  1. Javeed S, Dibble CF, Greenberg JK, et al. Upper limb nerve transfer surgery in patients with tetraplegia. JAMA Network Open, 2022.
  2. van Zyl N, Hill B, Cooper C, Hahn J, Galea MP. Expanding traditional tendon-based techniques with nerve transfers for the restoration of upper limb function in tetraplegia: a prospective case series. The Lancet, 2019.

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