O que é o "pé caído"?
Pé caído é quando a pessoa perde a força para levantar a ponta do pé. Isso faz com que o pé fique arrastando no chão ao caminhar, e muitas vezes a pessoa precisa levantar mais o joelho para não tropeçar.
Isso costuma acontecer porque o nervo fibular foi lesionado. Esse nervo passa bem perto da parte externa do joelho, logo abaixo da pele, o que o torna vulnerável a compressão, estiramento ou lesão direta durante traumas, luxações de joelho e até durante cirurgias ortopédicas na região.

Nem sempre a causa é um trauma
Além de acidentes e luxações, a literatura descreve várias causas de compressão do nervo fibular no joelho, muitas delas do dia a dia:
- hábito de cruzar as pernas por longos períodos;
- perda de peso rápida e importante, em poucos meses;
- longos períodos acamado ou posicionado na mesma posição, como em internações e cirurgias demoradas;
- gessos, talas ou órteses que apertam a região logo abaixo do joelho;
- entorses graves do tornozelo, que podem tracionar o nervo.
Entre os traumas, a luxação do joelho merece destaque: uma revisão sistemática registrou paralisia do nervo fibular em 5% a 40% desses casos.
Nem todo pé caído vem do joelho
A fraqueza para levantar o pé também pode ter origem na coluna lombar — por compressão da raiz L5, por exemplo, em uma hérnia de disco — ou em outros pontos do trajeto do nervo, como o nervo ciático na coxa.
O exame neurológico ajuda a separar essas situações. Um dos testes mais úteis é a força para virar o pé para dentro (inversão): esse movimento depende principalmente do músculo tibial posterior, que não é comandado pelo nervo fibular. Se a inversão também estiver fraca, a lesão provavelmente está acima do joelho ou na coluna. A eletroneuromiografia complementa essa avaliação e ajuda a localizar o ponto da lesão.
Existe tratamento cirúrgico? Sim
Existem várias opções cirúrgicas para tratar o pé caído, e a escolha depende principalmente de dois fatores: o tipo de lesão do nervo e o tempo decorrido desde o acidente ou a cirurgia.
Liberação do nervo (neurólise)
É indicada quando o nervo está apenas comprimido ou "preso" em tecido cicatricial, sem estar rompido. Os resultados costumam ser bons.

Reparo ou enxerto de nervo
É usado quando há uma lesão mais séria, com a continuidade do nervo interrompida. Funciona melhor quando realizado dentro dos primeiros 6 meses após o trauma e quando o segmento lesionado é curto. Saiba mais sobre a técnica em enxerto de nervo.

Transferência de tendão
Quando o nervo não tem mais condições de se recuperar — lesão muito antiga, acima de 12 a 18 meses —, é possível "pegar emprestado" o tendão de outro músculo da perna e reposicioná-lo para puxar o pé para cima. A cirurgia é chamada de transferência do tendão do tibial posterior, que é fixado no segundo cuneiforme (um dos ossos do pé) ou no tendão do tibial anterior.
Essa cirurgia pode ser feita mesmo anos depois da lesão original, desde que o músculo doador esteja saudável e a articulação do tornozelo ainda tenha mobilidade preservada.

O que os estudos mostram
Uma das maiores séries publicadas sobre o tema, com 318 lesões do nervo fibular operadas na altura do joelho, ajuda a entender por que o tipo de lesão e o tamanho da falha pesam tanto:
- quando o nervo estava em continuidade e respondia à estimulação elétrica durante a cirurgia, a neurólise levou à recuperação de função útil em 88% dos casos;
- a sutura direta alcançou boa recuperação em 84% dos pacientes em até 24 meses;
- com enxertos curtos, de até 6 centímetros, 75% recuperaram força útil; com enxertos de 6 a 12 centímetros, 38%; e com enxertos de 13 a 24 centímetros, apenas 16%.
Já na luxação do joelho, uma revisão sistemática mostrou prognósticos bem diferentes conforme a gravidade: a maioria dos pacientes com paralisia parcial recuperou a força por completo, enquanto menos de 40% daqueles com paralisia completa voltaram a levantar o pé contra a gravidade. Nesses casos persistentes, os autores apontam a transferência do tendão do tibial posterior como o meio mais previsível de recuperar esse movimento.
Esses números descrevem grupos de pacientes estudados e não substituem a avaliação individual.
Tratamento sem cirurgia e o papel da órtese
Enquanto se acompanha a recuperação — ou quando a cirurgia não é indicada —, alguns cuidados fazem diferença:
- Órtese tornozelo-pé: mantém a ponta do pé elevada durante a marcha, evitando tropeços e quedas.
- Evitar a compressão: não cruzar as pernas e proteger a região lateral do joelho quando a causa é compressiva.
- Fisioterapia: manter o tornozelo móvel e alongado. Isso preserva as opções de tratamento, já que uma articulação rígida limita o resultado de qualquer cirurgia posterior, inclusive da transferência de tendão.
O tempo importa, mas nunca é tarde para avaliar
Quanto mais cedo o paciente for avaliado por um neurocirurgião especialista em nervos periféricos, maiores são as chances de recuperação do próprio nervo, sem precisar recorrer à transferência de tendão. Veja até quando é possível operar o nervo após um acidente.
Ainda assim, mesmo pacientes com lesões antigas — de anos atrás — podem se beneficiar da transferência de tendão, com o objetivo de voltar a caminhar sem depender da órtese e com menos risco de quedas.
Este texto é educativo e não substitui a consulta. A indicação de cada cirurgia depende de avaliação presencial, e não há promessa de resultado.
Referências
- Baima J, Krivickas L. Evaluation and treatment of peroneal neuropathy. Current Reviews in Musculoskeletal Medicine, 2008.
- Kim DH, Murovic JA, Tiel RL, Kline DG. Management and outcomes in 318 operative common peroneal nerve lesions at the Louisiana State University Health Sciences Center. Neurosurgery, 2004.
- Woodmass JM, Romatowski NP, Esposito JG, Mohtadi NG, Longino PD. A systematic review of peroneal nerve palsy and recovery following traumatic knee dislocation. Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy, 2015.
